terça-feira, junho 24, 2003





Michael Gira, poeta e maestro dos Swans


Na última edição da Wire vem, para lá de uma pequena entrevista com os fabulosos Animal Collective [ entrevista para breve na Puta ], ou ainda de um pedaço de texto-manifesto apaixonado da Lydia Lunch, um excelente artigo com o Michael Gira, líder dos defuntos Swans. Trabalhando agora com a sua nova banda, os Angels of Light, editados no seu próprio selo, a Young God Records, Gira continua intenso e poético como sempre, mas dentro de mim, sagrada mesmo, é a música que produziu com os Swans.

Numa carreira bastante heterogénea, os curiosos que nunca os ouviram terão que ter muito cuidado por onde começar, quer por razões estilísticas, quer por razões de integridade emocional. Os Swans foram das poucas bandas realmente perigosas da história do rock. Perigosos como, por exemplo, os Joy Division o foram.

Lembro-me de há alguns anos estar uma noite na casa de um antigo amigo, às tantas da manhã com uma directa em cima a ver k7s antigas dele com gravações do 120 Minutes, a bíblia televisiva do indie/avant-garde nos anos 90, extinto programa da MTV. Lembro-me do riso sólido do meu amigo, de olhos abertos, quando se disse que iria rodar o "novo single dos Swans", "Love of Life". Fiquei com a curiosidade espicaçada. Lembro-me de não me lembrar se tinha respirado nos minutos que se seguiram. Sei que nunca tinha ouvido ou visto nada assim. As imagens seguiam-se como flashes, padrões psicadélicos entrecortados com caras e símbolos numa velocidade excessiva, enquanto um som massivo, impressionantemente imponente, demolidor, rodeava uma voz messiânica, possessa, que entoava frases repetidamente, mudando-as constantemente de forma quasi-subliminar, hipnótica, marcial:

“For The Love Of Life
For The Love Of Life
In The Light Of Life
In The Love Of Light
And The Strong Survive
For The Love Of Life
And The Strong Will Rise
In The Endless Light
For The Blood Of Life
For The Love Of Life
In The Bloodless Light
For The Love Of Light
In The Blood Is Light
In The Light Is Life
For The Love Of Life
For The Love Of Life
In The Endless Light
In The Blood Of Life
Now The Strong Will Rise
For The Love Of Light
In The Bloodless Light
Now The Strong Survive
For The Love Of Life
For The Blood Of Life
And The Heavens Come
For The Strongest Ones
In A Universe
Made Of Blood And Love
In The Blood Is Light
In The Light Is Life
For The Love Of Life
For The Love Of Life”

Pareceu-me a melhor coisa que já tinha ouvido em toda a minha vida, que não o era nem é, claro. Mas cada melhor coisa do mundo inteiro tem essa capacidade de o parecer na altura em que o é em nós. Não me recordo se horas a seguir, se no dia seguinte, fui à Feira da Ladra com um outro amigo procurar discos deles. Comprei uma edição numa elegante caixa de cartão que inclui os álbuns Cop, Greed, Holy Money e ainda o EP Young God [ é exactamente daí que os suíços tiraram o nome, sim ].

O que comprei foi exactamente dois CD’s com os álbuns de estúdio da era mais perigosa dos Swans, todos eles, ali, à minha espera. Os Swans, sempre minimais, trataram durante toda a sua carreira de alguns – todos? - os grandes temas líricos. Vocês sabem do que eu estou a falar: Alma/Corpo, Amor/Ódio, Prazer/Dor, Posse/Perda, Mestre/Súbdito, Sangue, Paixão, Estrelas, Escravidão. Tudo isto bem separado, ou muito bem misturado ao ponto da confusão sensorial. In extremis, não é, por vezes, o ódio amor? A dor prazer?

Ora, estes trabalhos da primeira fase dos Swans, compreendida estilisticamente entre 82 e 86, é, que me lembre, a música mais deprimente, brutal e dolorosa que conheço. Cada pulsar da bateria um duro pontapé no estômago, e a batida não pára. Cada nota na guitarra uma violenta facada, e o sangue continua a sair. Monolítica, primal, gutural, é poluição e dor, exorcizadas a partir da recepção das mesmas em excesso. Fisicamente esgotante, punitiva, o poder desta música é multiplicado pela tempestade em tumulto que é a voz de Gira, simultaneamente espectral e gutural. Deixo a letra, na íntegra, um dos mais magníficos hinos desta época da banda, “A Hanging”, de Holy Money:

“Dear God In Heaven
I Feel For You
Dear God In Heaven
I Feel For You
I'll Hang For You
I Feel For You
I'll Hang For You
I Feel For You
I'll Hang Myself
I Feel Myself In You
I'll Hang For You
I Love Myself In You
Dear God In Heaven
I Feel For You
Dear God In Heaven
I Feel For You
I Won't Do Anything
I Won't Do Anything
I'll Remember Everything
I'll Remember Everything
Dear Dear God In Heaven
I Feel Myself In You
Dear God In Heaven
I'll Hang For You”

Gira mártir-corpo consciente, súbdito, em êxtase de desprendimento total, amor, masturbação, purificação, morte, enquanto que Jarboe - na altura recente membro da banda e uma das mulheres da vida de Gira - faz ressoar o seu canto fúnebre.

Jarboe, por sua vez, é um caso muito particular na relação que cria com alguns ouvintes, sei-o porque já conheci quem partilhasse da mesma sensação. Trata-se de uma relação quase maternal, sagrada, apaziguadora, mas ao mesmo tempo sexual, sem que ela emane realmente algo libidinoso, como na Pietà. Para tentarem perceber isto podem ouvir a mágica “Blackmail”, também de Holy Money. Ressalve-se, de qualquer das maneiras, que Jarboe andou ali num limbo estético muito duvidoso (aquelas tranças finas descoloradas mid-80’s não lembram a ninguém, nem o recente look de Santa Maria do S&M), portanto não se ponham aí com ideias.

No ano seguinte, com Jarboe bem sedimentada criativamente dentro do grupo, começou uma era não menos intensa, mas a “perigosidade” de que falava esmoreceu um pouco. Vieram até a aparecer, inclsuive, as guitarras acústicas, e, pior ainda, Gira parece que ficou mesmo apaixonado [eek]. Um ciclo novo começava, mas disso falarei – ou não – noutra altura. Os Swans viriam ainda a produzir a sua obra-prima, o canto de cisne consiente Soundtracks For The Blind e um duplo ao vivo, dos meus álbuns de sempre, o monumental Swans Are Dead.

Para quem quiser compreender melhor tudo isto, o site oficial da banda tem uma série de dados interessantes, todas as letras da banda, bem como uma fascinante entrevista que não consigo encontrar em que Gira falava da sua incrível vida na fuga que fez pela Europa e Norte de África, desde os seus 14 aos seus 16 anos, altura em que foi expulso - penso que - da Turquia, depois de preso, por tráfico intercontinental da drogas pesadas. Se a voltar encontrar farei um link na freira, já que é muito importante para compreender a pessoa de Michael Gira, e, consequentemente, obra dos Swans, bem como este abismal primeiro período da banda, que inclui, para lá dos registos referidos, o EP Filth e o álbum ao vivo, Body To Body, Job To Job.

quinta-feira, junho 19, 2003





Nick Drake


"When I was younger, younger than before, I never saw the truth hanging from the door.
And now I'm older, see it face to face. Now I'm older, gotta get up, clean the place.

And I was green, greener than the hills where the flowers grew and sun shone still.
Now I'm darker than the deepest sea. Just hand me down, give me a place to be.

And I was strong, strong in the sun. I thought I'd see when day is done.
Now I'm weaker than the palest blue. Oh, so weak in this need for you."


"A Place to Be" . in Pink Moon (Island, 1972)






A dois dias do início do Verão parece-me bem partilhar um dos meus álbuns preferidos para esta época, que é, também, dos meus discos favoritos de sempre, independentemente do estio. Pink Moon é daquelas raras obras de arte que é capaz de nos salvar em alturas menos boas, relembrar-nos da importância da paciência, mostrar-nos um caminho que desconhecíamos. Um canto multicolor e angélico de um génio que o tempo levou cedo demais. Dos 28 minutos em música que mais vezes me fizeram carregar no botão que diz "repeat all", dias inteiros.

Drake, eternamente num sítio bonito, em vida a ler o seu Shakespeare debaixo de uma árvore em Tanwarth-in-Arden ou a ouvir Bach no cadeirão na sala, é das figuras mais belas e misteriosas da música do séc. XX. Aos 24 anos gravou esta, a sua última obra editada em vida, a mais directa e fantástica de todas. À excepção do piano no tema título - que gerou o começo de um conhecimento da sua obra para um público bem mais visto, após a sua utilização num anúncio da Volkswagen há alguns anos -, é um álbum só com Drake, a brisa serena da sua voz maravilhosamente direccionada pela sua inteligência melódica suportada, pela preciosa musicalidade da sua técnica de guitarra acústica, a continuação espiritual e física do seu corpo criativo, despontando cantos singulares, paralelamente e em simultâneo, a ressoarem de toda a sua alma.

"From The Morning"

"A day once dawned, and it was beautiful. A day once dawned from the ground.
Then the night she fell and the air was beautiful. The night she fell all around.
So look see the days, the endless coloured ways,
and go play the game that you learned from the morning.

And now we rise and we are everywhere. And now we rise from the ground.
And see she flies, she is everywhere. See she flies all around.
So look see the sights, the endless summer nights
and go play the game that you learned from the morning."


Um compositor para gerações posteriores à sua, Drake foi bastante ignorado na sua altura, muito por causa das suas raríssimas aparições em público, bem como pelo cariz secretista destas. Um doce gigante de dois metros, Nick Drake, em toda a sua calma e sabedoria é um dos proverbiais "shelters from the storm", para sempre presente no sítio onde o tempo pára e sorri.
Les Glaneurs Et La Glaneuse (2000) . de Agnès Varda


Filme que não fui ver quando estreou por cá, principalmente por causa da imagem com que fiquei. Um filme sobre respigadores e uma respigadora? Ainda por cima um documentário? Francês? Seca.

Uma reacção preconceituosa que nada tem que ver com a beleza do filme. E está lá ela, bem viva e real. Uma road trip feita por Varda ao longo de França com uma máquina digital na sua mão rugosa, em sorriso doce para a morte. Procura quem, de uma forma ou de outra, tenha gosto em buscar as sobras, os restos, o "lixo" dos outros, partindo do modelo dos já quase extinto hábito de respigar. A cineasta respigadora belga vai encontrando ao longo do seu percurso várias pessoas que devem parte da sua sobrevivência, seja ela física e/ou artística, aos excessos consumistas de uma sociedade que se sente obrigada - conscientemente ou não - a actualizar-se de novos bens, ou que tem receio de comer coisas que já passaram um dia do prazo, que não está devidamente habituada a dar o que não precisa ou a partilhar. Há o senhor com mestrado e curso em biologia que vai todos os dias, muito cedo de manhã, à procura das sobras dos vegetais e da fruta do dia anterior, para depois vender revistas cujos fundos vão para uma organização de caridade, para depois dar aulas de aprendizagem de escrita sem receber. O sem-abrigo que vai regularmente buscar uns valentes kilos de batatas dentro das toneladas que são deitadas fora por serem grandes ou pequenas demais para a estética do consumidor. Há o outro senhor que faz toda a sua arte a partir de coisas que encontra perto dos caixotes do lixo. Todos gritantemente com cara de boas pessoas, simples, como já me desabituo de ver hoje em dia na cidade. Uma grande lição dada por seres humanos que se mantiveram conscientes da possibilidade e naturalidade do aproveitamento dos excessos de produção, ridículos e trágicos. Humildecedor.

Para os interessados que estão a ler este post no dia certo, o filme ainda passa hoje, pelas 21.45, no Cine Paraíso.

segunda-feira, junho 16, 2003

Terminou hoje a 19ª edição do Festroia. Foi provavelmente a edição mais fraca que já vi do festival, ainda que talvez tenha sido aquela, tirando a do ano passado, em que vi menos filmes, principalmente por culpa da pouca qualidade das coisas a que ia assistindo associado a questões relativas a horários e compromissos pessoais.

Já foi um bom festival o Festroia, até há bem pouco tempo - dois anos - era relativamente fácil ver grandes filmes entrecortados com outros menos bons, sendo que as pérolas eram realmente preciosas. Lembro-me de nessa edição de 2001 ver dois filmes fabulosos de seguida, a primeira exibição em Portugal - em concurso na secção oficial - do magnífico Angels of the Universe, de Fridriksson, seguido do lindíssimo conto sobre a heroína, Acts of Worship, de Rosemary Rodriguez. O filme de Rodriguez, como tantos outros que passaram em 19 anos de Festroia viram a sua única exibição no nosso país, tendo-se perdido no tempo por cá, e, devido à sua natureza independente, ficam afastados de uma distribuição comercial que, por vezes, mereciam. São poucos os que por ali passam e o merecem hoje em dia.

Devido aos gastos absurdos e barrocos do Presidente da Câmara vigente durante doze desastrosos anos, o "ilustre" Sr. Mata Cáceres, a Câmara ficou endividadíssima, sendo que o corrente mandato limitou-se, humildemente, a começar o processo de pôr as contas municipais, com muita contenção e esforço, num balanço positivo. Obviamente que a cultura (inexistente, para além da louvável manutenção da mágica sala do Fórum Luísa Todi e também do Charlot, dois espaços onde praticamente só passam filmes distribuídos em Portugal pelo circuito independente) leva com cortes severos neste processo, e o Festroia não é excepção. Paralelamente ao facto do orçamento ter sido drasticamente cortado, as pessoas da organização parecem já ter passado os seus glory days (ave, Boss), escolhendo, não sei - nem sei se quero mesmo saber, para não ficar triste - bem com que critério algumas dezenas de filmes que alternam entre a xaropada, o mau gosto, a mediocridade, e, muito raramente, bastante qualidade. Ainda que não tenha visto dois dos filmes da Secção Oficial que melhor ficaram cotados entre os meus amigos (incluindo o filme vencedor), não houve nenhum desta categoria que tenha passado acima da linha do relativamente aceitável. Até a secção de independentes - que sempre ajudou o festival com a presença regular de um par de filmes bons todos as edições - foi cancelada (os tais fundos), tendo existido este ano uma secção para curtas galesas (!). O cada vez mais ridículo prémio de carreira, já tendo condecorado figuras como Christopher Walken ou Dennis Hopper, foi entregue este ano ao Ruy de Carvalho, que, penso, dedicou muito mais da sua vida a produção para teatro e televisão.

É que parece-me que há pequenas produções de qualidade que pouco cobrariam para ter o seu filme no festival. Também me parece que há que ultrapassar o medo das salas vazias, porque se o problema é o dinheiro e a grande maioria do público entra com bilhetes oferecidos pelo município ou por uma série de organizações culturais que os distribuem, que se ponha as pessoas a comprar os passes (bastante baratos, eternamente a 25 euros) ou os bilhetes (idem, a 1.75 para estudantes, normais a 2 euros). É uma pena porque estraga a coerência e o nível qualitativo do festival, denegrindo ao mesmo tempo o prestígio do festival lá fora, que só leva a menos interesse de realizadores estrangeiros a fazer cá exibições dos seus trabalhos.

Não consigo, por outro lado, criticar os hilariantes intérpretes presentes, já que fazem parte integrante do que ainda vai dando uma aura especial ao Festroia, caracterizadas por um grande poder de síntese distortiva e pronúncia de Cursos Português-Inglês Planeta Agostini – “Yes!”. Assim como também não o consigo fazer em relação ao clássico lenço que a organizadora Fernanda Silva leva todos os anos atado no seu braço religiosamente, para a cerimónia de entrega de prémios (ainda que não consiga dar real credibilidade a uma pessoa que usa calças justas com um padrão de flores que devem estar há quinze decadentes anos naquele armário).

Ainda assim, para além das várias películas telefílmicas que foram passando, ainda se conseguiu ver algumas coisas boas. Na secção Panorama Sma Ulykker (aka Minor Mishaps), de Annette K. Olesen, um tocante tratado sobre o terror e o desespero da traição - também mas não só - em situações delicadas, é o filme que já vi que melhor consegue descrever o desespero sobre o tema, a par com o dilacerante Infidelidade, de Liv Ullman. Na mesma secção Rezervni Deli (aka Spare Parts), do esloveno Damjan Kozole é um sóbrio e conseguido retrato sobre o tráfego de imigrantes entre o país e a Itália, mediatizando as pavorosas condições em que estas pessoas procuram uma vida nova, muitas vezes acabando como 'peças sobresselentes' no mercado negro de orgãos para fins de venda; como pano de fundo, uma Krsk intoxicada por uma fábrica nuclear prossegue a sua vida com poucos alvos, num ambiente urbano desolado e deprimente q.b.. Finalmente, inserido no ciclo de cinema suíço, Dans la Ville Blanche, de Alain Tanner em co-produção com Paulo Branco é uma história de errância, de actividade mutificada, interna, como só a escola germânica o consegue fazer. Curiosamente, é um filme com várias paralelos com o recentemente relançado Der Stand Der Dinge, de Wenders, incluindo o facto de ter sido filmado em Portugal e lançado no ano de '83, nomeadamente na zona de Alfama, as docas perto de Sta. Apolónia, e o - agora - abandonado Texas Bar, na Rua de São Paulo.

Há seriamente agora que pensar em mudar critérios, em renovar o comité da organização. Seria uma pena ver o Festroia a continuar a sua queda.

quarta-feira, junho 04, 2003





Ian McKaye . vocalista dos Minor Threat (1983)


Acabei ontem de ler um dos melhores livros de e sobre rock em que já peguei. Chama-se Our Band Could Be Your Life, escrito pelo Nirvanófilo Michael Azerrad. Retrata a cena underground dos anos 80 nos Estados Unidos desde o punk de L.A., ao Hardcore de Washington, do artyismo Nova Iorquino até a toda a cena de Seattle, culminando no início do lo-fi em Olympia. Ao longo de mais de quinhentas páginas, divididas por capítulos, cada um destes preenchido pelo percurso de uma das bandas nesta época, como os Black Flag, Sonic Youth [que concerto incrível, já agora], Minutemen, Hüsker Dü, Mission Of Burma, Butthole Surfers, Dinosaur Jr., Fugazi ou Beat Happening.

A linha que percorre o livro e une todas estas bandas a editoras seminais como a SST, a Dischord, a Sub Pop ou a K Records, a distribuidoras, a jornalistas, a zines, a melómanos, é o espírito punk em essência, ou, por outra, o que Azerrad idealizou no seu conceito de punk. Um que alberga a tentativa e o sucesso em ser diferente, original, enquanto se faz as coisas com uma ética profissional e criativa muito fortes, sem qualquer tipo de concessões ao dinheiro e ao Gajo, porque se está vivo, se tem coragem, porque a alma tem que cantar, porque a fé e o querer em sentir são a principal força motriz.

Descrevem-se as cruzadas suadas, malcheirosas, subalimentadas, caóticas, mas, em última análise, triunfantes dos anos independentes de todos estes projectos até à chegada overground deste underground, depois do boom de Seattle epitomizado no lançamento de Nevermind. "It's not in the finding, it's in the looking for", e, como tal, vermos outras pessoas com o sangue a correr depressa só faz o nosso bombear mais depressa também, até porque Azerrad tem uma escrita beatesca muito atraente sem nunca deixar de ser claro, apaixonado e informativo sobre os conteúdos que está a tratar (até porque ele esteve lá), complementada por relatos dos intervenientes principais - quase, porque D. Boon morreu cedo demais, godbless - todos.

Para quem estiver interessado podem encontrar este livro pela Amazon, ou, caso estiverem em Lisboa, não há-de ser complicado encomendá-lo na Tema, ao lado do C.C. Xenon nos Restauradores.


"I live sweat but I dream light-years"


Minutemen, "The Glory Of Man" in Double Nickels On The Dime (SST, 1984)
Peço desculpa a quem usou do seu tempo para voltar cá várias vezes nesta minha ausência prolongada, não encontrando conteúdos novos. Não gosto nada que me façam perder tempo nem de fazer outros perderem o seu. Foi complicado voltar a escrever aqui depois de voltar de Londres, começar a verbalizar as coisas, algo que já comecei a fazer aqui. Cá estamos, e assim.

domingo, maio 04, 2003

Escrevo a avisar as pessoas que costumam frequentar a freira que esta encontrar-se-á inactiva até, pelo menos, à data de 14 de Maio. Tal deve-se ao facto de eu estar em Londres até essa altura, onde vou ver uma data de arte importante.

Para lá dos clássicos [ Tate Modern . Britain . National Gallery . etc ] há agora a Saatchi Gallery, com uma exposição mesmo muito prometedora do Damien Hirst.

No panorama dos concertos vou ver os fantásticos Black Dice, Cat Power, Dirty Three, Animal Collective, Yo La Tengo e mais outros tantos.

Até lá.

Ah, Ah,
Guns Of Brixton.

terça-feira, abril 29, 2003

Há pouco na rua do elevador da Bica estava um grupo de dois senhores a subir, e outro senhor, só, a falar com os dois primeiros. Tinham todos sessenta e muitos, setenta anos.

Senhor Sozinho - "Querem ver a broca?!" [ agarrando com uma mão na sua genitália . enquanto . com a outra . começava a desapertar a braguilha ]

Senhores Não-Sozinhos - "Não pá! Deixa lá estar isso!"

Senhor Sozinho - "Os comunistas [!] sempre andaram a chular os fascistas!"


Classe pura.

segunda-feira, abril 28, 2003





Werner Herzog in Julien Donkey-Boy de Harmony Kurine


Há algumas obras de arte que emergem dentro de mim com bastante regularidade, poucas. Este Julien Donkey-Boy é, dentro deste grupo, das que mais importância têm. É uma questão de intensidade e de ambientes.

À superfície, é a história de um pai [o realizador alemão Werner Herzog] que tem uma relação abusiva com os seus filhos, nomeadamente com um deles, deficiente mental, o Julien do título [ Ewen Bremner . Spud de Trainspotting ], numa área residencial suburbana e deprimente.

O que me marcou tanto foi a sua intensidade quase grotesca, a bem do sentir. Há uma série de episódios bastante bizarros ao longo do filme, nomeadamente um [ para quem já viu o filme . o do homem que engole cigarros sem os apagar ] que me deixou num riso histérico [ note-se que não tinha piada nenhuma ] durante vários minutos, sem qualquer tipo de controlo sobre o meu corpo, num efeito hipnótico extremamente perturbante. Há outra cena em particular, belíssima, em que a filha [ Chloe Sevigny ] patina num ringue de gelo, grávida, num verde desfocado e granular [ como este ou este ], enquanto passa uma música dos Oval no fundo, filmada de uma forma extremamente repetitiva até ela cair, que deixou a minha própria visão desfocada.

Lembro-me que saí extremamente tonto do filme, tendo ficado com a visão, a noção de peso e de espaço bastante distorcidas durante dois dias. Nada parecia fazer, concretamente, muito sentido. Depois as coisas normalizaram.

Um pouco como com os Swans ainda da primeira metade dos anos 80, há um efeito redentor nesta brutal repetição de violência, um tinir que mutifica todo o resto físico e espiritual, excesso conduzindo a dormência.

.

Tive algumas sensações semelhantes quando vi recentemente o incrível Audition, de Takashi Miike [ também de 1999 . algumas imagens aqui ]. Tal como no filme de Kurine há um forte elemento de violência - os últimos trinta minutos são impressionantes -, sendo que aqui é bem mais elegante e tortuosa, dada de uma forma explícita sem ser visível na maior parte das vezes. Parece-me que o porquê da violência neste filme prende-se com o porquê da detracção da boa vontade, da confiança nos outros, os mais próximos.

Muito mais do que apenas um filme de violência vendida como humor, como penso que o público presente na sua exibição no Fantasporto em Lisboa o interpretou, bem como praticamente todas as pessoas que escreveram no IMDB - estranhamente, diria - é uma viagem as profundas da parte doentia do subconsciente humano [ vide Clockwork Orange ], neste caso perante uma situação na forma de uma pessoa que nos é dada, na realidade, como pura. Porque, afinal, onde começa o sonho e acaba a realidade? O medo, a falta de entrega total, não serão ilusões? A experiência leva-nos cada vez mais perto ou afasta-nos da beleza? Ou as duas coisas?

quinta-feira, abril 24, 2003

quarta-feira, abril 23, 2003





Anna Karina in Vivre Sa Vie


Ei, tu. Tira daí o dedo da frente...

O Godard, tal como o Fellini, sempre teve uma pontaria afinadíssima na escolha das suas donzelas-actrizes. Mas Anna Karina é, porventura, a criatura mais maravilhosa delas todas. Parece-me que desde que a vi pela primeira vez, no supracitado filme, me apaixonei um bocado por ela ali. Cada vez que a vejo em filmes daquela altura apaixono-me um pouco outra vez. Não admira que ele tenha feito curto-circuito quando terminou a relação com ela, em '67.

Tenho vindo a entrar em conflito com bastantes filmes, nomeadamente com o facto de 99% deles serem representados por pessoas que tentam ser algo que, muitas vezes, não são. Se a actuação não é perfeita, dou por mim a distanciar-me do filme, a deixar de ficar completamente absorvido do princípio ao fim, por melhor que seja o esforço do actor, por mais beleza que possa haver exactamente na subversão, na arte de fingir. Ser pressupõe raízes, e essas [as boas . pelo menos] demoram a crescer. Há um enorme problema quando o actor não consegue deixar de ser uma coisa para ser outra, ou quando não se encontra noutra forma de expressão humana, outro timbre nas mesmas cordas vocais. Isto parece-me óbvio e um dado adquirido para a maior parte das pessoas, até porque já houve uma série de reacções a esta problemática [vide Dogme 95 . exemplo recente e mediático].

Falo nesta questão dentro do contexto da Anna Karina porque há algo de tão invulgarmente [ou então ando mal habituado . que é o mais provável] genuíno, vivo, brilhante, puro em tudo o que ela faz, em tudo o que ela toca, na forma como toca, na forma como anda, na forma como olha, que me deixa completamente encantado.

segunda-feira, abril 07, 2003

"We feel what we don't understand"

Pop Group . in Y


Não sei se são mesmo estas palavras que o Mark Stewart canta algures durante o disco, mas pouco me interessa isso, foi o que ouvi. Não sei bem que pensar disto. Passei o dia rodeado por esta frase, parece-me que apareceu na altura certa.

sexta-feira, abril 04, 2003

quinta-feira, abril 03, 2003

"There are 12 people in the world, the rest are paste."


Mark E. Smith
Two, of course there are two.
It seems perfectly natural now ---
The one who never looks up, whose eyes are lidded
And balled¸ like Blake's.
Who exhibits

The birthmarks that are his trademark ---
The scald scar of water,
The nude
Verdigris of the condor.
I am red meat. His beak

Claps sidewise: I am not his yet.
He tells me how badly I photograph.
He tells me how sweet
The babies look in their hospital
Icebox, a simple

Frill at the neck
Then the flutings of their Ionian
Death-gowns.
Then two little feet.
He does not smile or smoke.

The other does that
His hair long and plausive
Bastard
Masturbating a glitter
He wants to be loved.

I do not stir.
The frost makes a flower,
The dew makes a star,
The dead bell,
The dead bell.

Somebody's done for.



Sylvia Plath . Death & Co.



O céu, as estrelas, o corte e a morte. Sempre por perto dela até ao gás do último dia, o do éter terminal.
São seis e meia da manhã. Nem preciso de olhar para o relógio para o saber.

Porquê?

Porque o senhor que mora aqui na minha travessa na Bica acabou de efectuar a sua rotina matinal. Esta rotina consiste nos seguintes passos:


1) Fecha a porta da rua.
2) Dá uns passos.
3) Desde a unha do dedo mindinho até à ponta mais alta do cabelo, puxa violentamente todos os seus fluidos corporais que possam, alguma vez, por mero acaso, atravessar as suas narinas, produzindo um todo de - prefiro chamar-lhe - "cena", absolutamente colossal, como lava mesmo antes da erupção.

4) Tremo.

5) O senhor manda um escarro como se não houvesse um amanhã. Estrondoso.


Já dizia o Vonnegut: "so it goes."
"The best way to do it is with scissors."


Alfred Hitchcock
"Alright, so, I was at some random party at a random mansion. There was a t-bone steak stuck in my eye.. somehow. So, some guy walks by with an eye cleaning kit. I frantically wave him down, freaking out, yelling, "There's a damn STEAK in my eye man!". So he stops, and lends me his eye cleaning kit. He hands me the long cylindrical shaped casing.. i take out something that looks nothing like something that would clean an eye. It looked like an oversized syringe; long, glass, thing. So i'm about to clean off the dead cow in my eye.. when the eye cleaning thing starts barking and yelping like a dog. Being startled by this, i threw it to the ground and started kicking the syringe-cylinder-eye-cleaner, whilst it kept on yelping and crying and, now, wimpering from my excessive kickings. then I... woke up..
david mackinnon
NS Canada - Thursday, September 05, 2002 at 02:37:58 (CDT)"

in dreams @ Perishable Records Home


Extraído de uma secção em que alguns sonhos dos visitantes do site da Perishable Records são verbalizados.

Perishable Records que é, por sua vez, a editora dos norte-americanos Califone, que, por sua vez, têm um disco novo chamado Quicksand/Cradlesnakes, que, por sua vez, é lindo. Lindo como os dEUS até ao In a Bar, Under The Sea eram lindos e brilhavam de noite. Ora, imaginem que eles agora tinham feito um disco que brilha de dia [ não que eu não tenha passado tardes de sol aos saltos na sala a ouvir a "Suds & Soda" . imaginem ], com aquela confiança e olhos que conseguem ver para lá de onde os olhos não conseguem ver. É assim tão bom.

Deve estar brevemente nas lojas via AnAnAnA, pelo que foi editado pela Thrill Jockey. Dêem-le.

quarta-feira, março 26, 2003

"You can play a shoestring if you're sincere."


John Coltrane

sexta-feira, março 21, 2003




Marlon Brando in Apocalypse Now .



Esta merda é realmente asquerosa.

Não consigo compreender bem a real razão disto. Decerto que haverá algo maior, mais elevado, libertador e poético que o DINHEIRO. Não? É que me escapa, de facto.

As pessoas a morrer. O medo. Acordares aterrorizados. Crianças a chorar. Estão a roubar-lhes inocência e essa merda não tem preço. Como é que se pode falar de questões de segurança e bem-estar quando o choque e a maldade invade e corrói almas que ainda são puras e boas, dão um sorriso sem pedir nada em troca e respondem quando o coração chama?

É-me absolutamente inacreditável como é que pessoas como o Primeiro Ministro Durão Barroso conseguem falar com tanta naturalidade do "interesse nacional" de Portugal nesta guerra. Como é que se pode ser tamanhamente incoerente em apregoar liberdade e ordem mundial, apregoar o que quer que seja de correctamente ético e sobrepôr interesses a moral com tanta leviandade?

Tive a oportunidade de presenciar em directo na RTP1, imediatamente a seguir aos primeiros ataques a Bagdad, o soundcheck do Sr. W. Bush para a televisão, que estava - penso que por descuido de uma qualquer emissora - a ser enviado para um satélite que a RTP estava a captar e a mandar para o directo. O Sr. Bush mandava bitaites marialvas com a maior das boas disposições, piadinhas, sorrisos casuais enquanto lhe cuidavam dos últimos cabelos que não tinha exactamente no sítio. De repente começava a murmurar para ele próprio o discurso que daí a poucos minutos iria fazer ao seu país e ao mundo, os sorrisos tornavam-se imediatamente naquela expressão falsamente séria, teatralizada, a rebentar por aquele olhar parado e vazio que lhe é tão característico. Voltava de novo, num ápice, ao seu modo descontraído até que começa a ter uns tiques nos olhos, e, na voz de alguém que o ecrã não filmava, ouve-se "5, 4, 3, 2, 1". Flanqueado pora fotografias da sua família e do seu cão, "my fellow americans" eram informados que a guerra havia começado. Gostava que biliões de pessoas pudessem ter assistido a este momento.

Antigas - recentes - "grandes causas" [terrorismo internacional, Bin Laden] esvaem-se progressivamente de notas de rodapé até serem esquecidas. As notícias de há semanas evolam-se do nosso pensamento activo porque "há que continuar", ou ironizar, ou chorar ou gritar ou continuar paralelamente de olhos fechados. É demasiado. Estão a corromper a felicidade e a boa vontade milhões, e essa merda não tem preço.

Hoje, mais uma vez, vou adormecer no sofá com os phones ligados à televisão. Não me consigo enganar - ainda, alguém já deve estar a tratar disso - ao ponto de conseguir dormir, sem ser por exaustão, embora saiba que nunca vou saber realmente nada sobre o que se está a passar, os níveis de camuflagem e omissão de informação são devastadores [afinal, e a título de exemplo, o que é que aconteceu às duas mil pessoas que trabalhavam e viviam no complexo da refinaria no sul de Bagdad? Aquela que tinha casas, escolas para os filhos dos operários, supermercados?], parcialmente cobarde e parcialmente de mãos atadas, a ver a memória curta de novecentos anos de chacina ocidental não terem ensinado nada a quem ordena mortes e destrói bondade de almas.

Para finalizar, está aqui um texto do Miguel Sousa Tavares, que, tal como o Manel, subscrevo por inteiro.

domingo, março 16, 2003




Mark Rothko . Untitled (1969)

np. Tortoise . Millions Now Living Will Never Die (Thrill Jockey, 1996)


"um dois três é a ressaca outra vez"

sexta-feira, março 14, 2003

"I'm twice born, once and seven something
Once is the resurrection of honorable function
Been shoving a coal as the engine's doctor
Long enough to see my silhouette acquire a permanent kink in a posture
The meten into bicycle spirit by the warmth of true endearment
Was, is, and forever will be a luxury
I'm a soubrette columnist fathering doom document
Cursed version of a certain Virgin Mary womb occupant

I know swamp rats who never suckled oxygen purification
Sure it's blurry may have had them speeennnd breeezzzzze
Stuck until my friend leaves puppet for the plummet committee
Sputtering bum numb enough to stomach the city
Who's that hugging a silhouette of willows with a hill's press pan out?
On the candy coated crab apples, sugar dipped deadpan outs
I got a plan, I'll turnaquet my quest
Defeat a needle into battling to mute the mess
With patience galas without some G balance I shove it the fuck
Strutting to exhibit mankind's hostility function
With a, ppppppppp paling in comparison a methias Goliath
Live to riggedy frame in a wicked silence
I top and ate my nameless square then I bumped eyelids
With a Christ we saw the same thing through a second
What's that? The grand mosaic depicting historical glory in a legend
Nurse me through the time stick and stone mixes hex my fertile crescent
Now all's well, I'm laughing on the inside I swear
Just trying to keep my head above red tide despair
My imperfections pair off with buddy system symmetrics morbidly
So every second the discontent's locked accordingly
Let's turn mummy's shut up affection a berserk glory condition
And pray for the damn star child turns to ribbon
Meddle in a two-hand grip when that spoon full of sugar medical chaser
Credible crasser antidote's terrible taste the
Water with a stolen soul pen left picture mad rhythm pinned
Never set a grin and fly health
Consider me a mobile advertisement but I have replanant fabrics
I deemed practical, now is you is or is you ain't compatible
I feel a wind in my opinions plus hyper clutch
Crush one's ginger bread tenement awful,
It's like the date of Grado Methasawmill
A lifeline of spectacular expansion leaves the reaper
At the hand of what man's hand jokes
My friend's got a book about dreams, I look and laugh
I dream a book about my friends and still can't decipher the half
Ch-chatter boooox, now let a soothe sayer major
Cater to a king green battered on the brink of disease
I am, skin and bones, I am, sin and poems, I am, tin and chrome
You grin and groans fuck it I'm tinted when accrete zone
Blow the pedals off a dandelion trying to make my little gypsy blush
And felt as if I'd actually accomplish something
Fortify the bullies of the jokes soaking in treatment
Sit and watch the percentages teeter on the evening
On a ghost up in a fuse a lot second before the cock dropped
In the Styx and stared him down until he fixed it

I'll make the waterfall out of order in autumn saw the quarter
When the gods mimic the vintage knuckle drag sacked in a coffin
I affiliate my rag dummy appearance with a most cohesive spirit
Clattering the yesterday ain't shed a tear since
Hear me, wrote the Old Yeller community cartoon
The carousel balloon extravagant aware, inviting it
I'm swore to Adam and matter and saddling
Warhead thorax and abdomen to primitive horse back galloping
My index fingers rest in my talisman branded up in the jackals skin
One must pardon yee old common street detour
Weaving graceful through the prom directed column
Greater virus retreats to a lot in Valom
Bean stalk where the fiend walk and my name is mud
But that's got a ring to it so my swill welcomes the flood
I walk through God's practical joke on man practically broke
And if they raise my rent again I'll spend my nights practically soaked
Who spits silk dimensions with a noose looped by the raft?
After lack of reasoning jedi 3, 2, 1,
Oooh I'm hung, I've clung to hope but see you in hell
I'll be that clear blue ice for the symptom refused to melt
Sturdy eye krulin, tin can skeleton,
Skull of a thousand dilapidated dream remnants
Here to convict based on a tin bucket of evidence
I steer where the heaven's merely a legend so the peasants dream well"

Aesop Rock . 'Oxygen' in Float (Mush, 2000)


Esta letra que acabam de ler [ou não] é extraída de uma faixa de hip hop. Pura poesia.

Se por acaso ainda têm a ideia que o hip-hop é só ostentação gratuita de bens materiais, sobre como é fodido viver no ghetto, sobre bling bling e sobre booty, deixem-se dessa merda. Tentem ouvir esta faixa, ou o Float do fantástico Aesop Rock na sua íntegra [só disponível no Soulseek . o álbum está descatalogado]. Suportado por beats secos perfeitos para o flow dele, é uma obra-prima contemporânea de lirismo ascensorial. Porque por vezes há que conhecer o solo para se saber como subir.

quinta-feira, março 13, 2003







Yves Klein . Blue Sponge (1959)

faltava aqui azul .
"Só pode aceitar-se a vida se formos grandes, nos sentirmos na origem dos fenómenos, pelo menos de uns tantos. Sem poder de expansão, sem um certo domínio sobre as coisas, a vida é indefensável."

Antonin Artaud in A Arte e a Morte (Hiena, 1993)

quarta-feira, março 12, 2003




Marlon Brando e Vivien Leigh .

"They told me to take A Streetcar Named Desire, and then transfer to one called Cemeteries and ride six blocks and get of at Elysian Fields"


Fui vê-lo hoje. É dos melhores filmes a que já assisti. Saí da Cinemateca com um daqueles raros arrepios que ficam a reverberar dentro do coração, dos que duram para sempre. Ou assim me parece agora. Uma história de pureza perdida, distorção, fatalismos e eternidade.

"A Streetcar é sobretudo um filme sobre os rostos e os corpos dos quatro protagonistas, sobre as suas vozes, sobre o seu suor, sobre as suas lágrimas, quase se podia dizer sobre o seu cheiro. Se o grande tema de [Tennessee] Williams [autor da peça da qual original o filme] é a carne, é a carne quem enche a tela, seja no corpo já envelhecido de Vivien Leigh (lutando desesperadamente contra a sua idade) seja no corpo grávido de Kim Hunter, seja no corpo resplancescente (quase sempre filmado de tronco nu) de Marlon Brando." João Bénard da Costa

A Streetcar Named Desire é um sítio precioso onde caiu o eterno e onde as coisas acontecem.

Como Elia Kazan aparenta ter compreendido e brilhantemente executado, antes e para lá de enredos - o sentir. É, então, um enredo sobre e do sentir, da vida, sobre o que importa, porque é lá que está o choque, a unificação e o brilho-poeira de quem, realmente, andou por aí.

segunda-feira, março 10, 2003




Ornette Coleman - 'Lonely Woman' in The Shape of Jazz to Come (Atlantic, 1959)

Como a palavra é[-me] a distorção do abstracto, este tema é um daqueles casos em que custa, bem mais que o normal, verbalizar o que quer que seja. É dos raros momentos em música [ da que me interessa mesmo, pelo menos ] que conheço em que imagens não me aparecem por detrás dos olhos. É um sentir intrínseco à pele da música, a tudo o que o quarteto está a criar. É uma implosão de visão até à cegueira, onde estamos duplamente com as pálpebras cerradas, até à luz, que é a não-luz do sentir concreto puro, um todo embuído por lábios de seda.

Tudo nesta peça é notável. O swing [e que swing... com um bombo de pulsação arrítmica] corrido do Billy Higgins depois dos primeiros seis segundos pensativos, apenas acompanhado pelo contrabaixo do Charlie Haden. Haden lança notas como polaroids de esgares tristes em que os músculos já mal se contraem por falta de força, até que chegam Ornette [no sax alto . como sempre] e o fantástico Don Cherry [no cornetim]. Cherry era um puto aqui, tinha uns 22 ou 23 anos, mas Coleman compreendeu-lhe o coração, suportado por uma técnica nada extraordinária. Ornette o contador da história | Cherry o puto que fala demais mas diz coisas lindas como acrescento aos verbos do narrador, e é desta forma que a imperfeição parece ficar sem prefixo.

O Ornette Coleman é o único sax - a par com o Coltrane - que conheço que conseguia tocar com uma solidez, uma clareza e uma noção de direcção imaculadas. Imagino-o sempre num preto e branco límpidos, com muitos mais tons de cinzento que qualquer outro, a erguer e edificar, robusto. Sei-o exactamente assim, aqui, lírico.

Honestamente, é preciso ouvir. Vai para lá do inominável, do visível, do silêncio. Som em números [transparentes] negativos.

quinta-feira, março 06, 2003

acabei de acabar de fazer vinte anos . é algo estranho .

foi dos melhores dias de anos que já tive . esteve um sol muito bonito . ou estive ou falei ou comuniquei com as pessoas todas que mais me importam hoje . comovi-me realmente . estou bem vivo .

apesar da idade e das datas serem totalmente simbólicas . não consigo evitar não sentir a minha vida um todo cada vez mais sólido . amplo . abrangente . enraizado e livre [ com todos os paradoxos a estes atributos|adjectivos que lhes estão inerentes ] . há pessoas e coisas realmente importantes que se edificaram em mim e à minha volta realmente belas . estou verdadeiramente grato e contente por isto .

aos que se incluem neste campo sem falsas modéstias . amo-vos a todos .


e é como diz o Adolfo :

O tempo não espera por mim!

segunda-feira, março 03, 2003

Artéria, Tu Tens Razão


A única coisa que eu aprendi meu Deus
a sofrer a desilusão duma passagem de rua
ficar com o lado esquerdo a ajudar a falar
mas a única coisa que eu aprendi
Que um bocado de vidro inundasse de luz uma artéria
eu era um bocado de vidro que não inundasse de luz
artéria nenhuma
era uma desilusão a olhar para mim
e dizer movimento de rua
é assim movimento de rua
aí está nós cá estamos nós somos tal e qual
uma desilusão em passagem.
Tinha era ainda mais que tudo isso
um inchaço dum vidro em bocado
espetado em cima de pedra.
Havia um estendal de desilusão a devorar-me
todo com os olhos
eu era uma continuação do meu ser.
Onde um simulacro estava a vantagem
de uma desilusão.
Eu não
eu cá.
Que um cá estamos considerasse ou não
eu não tinha nada com isso
Eu fum, eu...
Ah,
Havia é que era eu cá estamos nada disso
eu cá não eu nada eu não tinha eu não tenho
tu quê
nós consideramos.
Onde punha fum
tudo por dentro era duma urania
tudo por dentro era duma constipação palpável
pelo sentido da pedra e do bocado de vidro.
Não eu cá não vou.
Quem olha descontenta.

António Gancho in O Ar da Manhã


[ nota: não estou certo da existência, ou não, da separação deste poema em variadas estrofes, pelo que não tenho o livro presentemente comigo, mas se se verificar, rectificarei o texto assim que voltar a ter o livro nas mãos. ]

Ouvi recentemente este poema a ser recitado [ e bem . coisa rara por cá . pelo menos na minha experiência ] que me tinha passado completamente ao lado quando tinha lido o supracitado livro, editado pela Assírio & Alvim; com coisas realmente bonitas, ainda que um pouco incoerente, reunindo quatro obras dele.

O Gancho está há quarenta anos internado na Casa de Saúde do Telhal, por uma série de razões que ele explica numa entrevista que o DN lhe fez há uns anos. Distorcido e aluado pela esquizofrenia mas, paralela e maioritariamente de uma lucidez e simplicidade comoventes, especialmente tendo em conta a vida que este homem teve durante dois terços da sua mais recente existência mortal, é mais um dos excelentes poetas portugueses renegados pre-mortem.




Fela Kuti - Expensive Shit/He Miss Road

Andei uns tempos largos a adiar o meu primeiro real contacto com o mestre do afro-funk, o nigeriano Fela Kuti, e o que ouvi é tão bom como a ideia que tinha construído dele. Esta reedição de dois dos seus álbuns mais conceituados feita em 2000, ambos gravados nos meados dos anos 70 é inacreditavelmente sorridente, viciante, dançável e colorida, perfeita para qualquer dia de sol e para qualquer dia em que se esteja a precisar, simplesmente, de luz e calor.

Experimentem tirar a faixa "Expensive Shit" do Soulseek e deixem-se levar pelo mestre. Boogie down, bitches.

quarta-feira, fevereiro 26, 2003

O longa-duração mais recente dos fantásticos Black Dice de seu nome Beaches & Canyons está, a partir de hoje, à venda em Portugal na AnAnAnA, loja / distribuidora / editora que está a distribuir o álbum, num digipack que custa 16.5 êróche.

Beaches & Canyons é dos mais belos e incríveis discos dos últimos 30 anos, em qualquer parte do mundo, em qualquer género. Desafia a rotulação e trata-se de uma experiência catártica, iluminadora, revolucionária e renovadora, quer em termos formais, quer a nível de experienciação por parte do ouvinte. É um disco importantíssimo. Urge a todas as pessoas ouvirem-no.

Se quiserem umas luzes acerca do trabalho deles, realizei recentemente para a Puta uma entrevista com eles.

terça-feira, fevereiro 25, 2003

freira dadaísta .

um exercício narcisista com intenções altruístas .

segunda-feira, fevereiro 24, 2003




Fui ver Au Hasard, Balthazar do Bresson à Cinemateca. Foi o terceiro filme que vi dele, depois de Le Journal d'un Curé de Campagne e Mouchette. Todos são muito bons e bastante recomendáveis.

Nestas três longas-metragens o Bresson – para além de filmar sempre num preto e branco, com uma fotografia triste, luminosa – tem algumas inefabilidades que me agradam muito. Têm algo de aquático, de líquido primordial, lágrimas como ecossistema das suas personagens principais, como que com um halo, sempre muito trágicas, que desafiam e estranham a mortalidade.

Há uma questão que me parece ser recorrente nestes filmes e que Bresson aborda, uma questão na qual tenho pensado bastantes vezes. Parece que a Bondade [ sim . eu sei que o simbolismo já morreu há uns anitos . é só desta vez ] está destinada ao fracasso. Quem tem bom coração morre sempre cedo demais: ou morre o corpo ou morre por dentro. Parece que só quem é um filho da puta, ou, quem não o é, quem se comporta vezes demais como um filho da puta é que tem a sorte do seu lado. As boas almas parecem estar condenadas à magoa, à injustiça, ao desrespeito ou à perdição menor, à perda de inocência.

Espero seriamente estar bem enganado.





John Fahey . 1939-2001

Faz hoje dois anos e dois dias que ele morreu . lembro-me que chorei muito nessa noite e no dia seguinte .

Fahey . o génio . pintor das cordas de aço .

não pára de cair no esquecimento . há uma série de discos notáveis na obra dele que têm que ser ouvidos .

Da sua primeira fase - a mais sediada, formalmente, nas raízes do Delta Blues - Blind Joe Death, The Transfiguration of Blind Joe Death e Death Chants, Breakdowns & Military Waltzes são brilhantes cantares de artérias cobertas de terra.



Da sua fase intermédia - a minha favorita -, com fortes influências do psych norte-americano e das ragas, America e - o criminalmente sobreolhado - Fare Forward Voyagers são discos belos e incríveis, assentes num discurso mais estendido e denso, sem Fahey nunca perder a sua pureza simples de coração, tantas vezes mascarada através do seu feitio acídico e falta de paciência para com coisas comezinhas.



Depois, mais ou menos como Miles o fez um ano antes, desapareceu em '75 para voltar algo perdido no início da década de 80, altura em que a sua editora - Takoma - lhe foi tirada das mãos, devido a uma enorme quantidade de dívidas. Do trabalho de Fahey posterior ao seu período clássico [ 60s e 70s ] conheço pouco, sendo que The Epiphany of Glenn Jones ou Womblife têm momentos de real beleza. Vai sair nas próximas semanas o seu - primeiro - álbum póstumo, Red Cross, que ainda não ouvi, parece seguir o trabalho que Fahey vinha a desenvolver com a guitarra eléctrica, depois de trinta anos sempre a depurar o seu trabalho nas cordas de aço da guitarra acústica. Como introdução parece-me bastante recomendável a colectânea dupla Return of the Repressed: The John Fahey Anthology, editada há quase dez anos, que abrange todas as fases do seu trabalho.

Uma segunda tentativa em formar uma editora, Revenant Records, continua a lançar uma série de música muito importante que tinha ficado perdida [ uma caixa vastíssima com 78s do Charley Patton ou Nefertiti, the Beautiful One Has Come do Cecil Taylor, p.ex. ] e artistas novos, como a última banda preferida de Fahey, os nu-hippies - mais ou menos lavadinhos dos - No-Neck Blues Band. Pessoas como o Thurston Moore, Robbie Basho, ou, mais recentemente, Stephen Basho-Junghans continuam a alargar o legado de Fahey.

Agora vão lá, por favor, ouvir o senhor, que ele nem agora, nem nunca, vos vai chamar. As pessoas que vão ter com ele.

I Remember Blind Joe Death.


domingo, fevereiro 23, 2003




Francesca Woodman . on being an angel #1

bom dia .